quinta-feira, 21 de julho de 2011

FITA EM SÉRIE


Ernani Maller

Eram dois homens, um aparentando mais de setenta anos e o outro, bem mais moço, por volta dos vinte e cinco. Enquanto esperavam o ônibus conversavam, até que o mais moço perguntou:
_ Nesta cidade não tem cinema?
_ Havia um, mas já fechou ha mais de cinqüenta anos, eu assisti a muitos filmes aqui. Disse o mais velho.
_ Mas porque o cinema fechou?
_Eu não sei ao certo, mas houve uma ordem judicial, eles tinham muitas dívidas, não conseguiam pagar o aluguel do imóvel, enfim, parece que não eram bons administradores. O prédio ficou por algum tempo ainda com letreiro de cinema, o que nos dava a esperança que iria reabrir, mas acabou sendo transformado em um mercado.
_ Mas na cidade já não havia outros mercados?
_ Sim, havia vários mercados, nos tínhamos muitos outros lugares onde comprar mantimentos. Para mim o cinema era o verdadeiro alimento, alimento pra alma. Eu ia também para outras cidades somente para ir aos cinemas. Imagine você eu assisti a grandes filmes como “E o Vento Levou“, “O Ladrão de Bicicletas”, “O Garoto”, de Charles Chapelin, isso tudo há mais de cinqüenta anos, e até hoje me lembro de detalhes dos filmes, mas não me lembro o que comi naqueles dias, para você ver o quanto à arte alimenta, é o alimento da alma. _ Falou o velho, saudoso e satisfeito com tão filosófica colocação, e continuou.
_ O cinema é um mundo de sonhos, a gente viaja por mil lugares, mil fantasias, a gente ri, chora, se assusta, fica tenso, relaxa, enfim, foge um pouco dessa realidade do dia-a-dia.
_ É verdade. Respondeu o rapaz, já meio arrependido de ter puxado assunto sobre cinema.
_ Mas as minhas grandes paixões, eram as “fitas em série”.
_ E o que eram essas “fitas em série”?
_ Era como as novelas de hoje em dia na televisão, só que no cinema, cada dia passava uma parte do filme. Eu trabalhava na lavoura, mas sempre depois do trabalho vestia minha melhor roupa e vinha para o cinema, eu gostava de verdade, era sempre o primeiro a chegar. A última “fita em série” que eu assisti, e que estava sendo a melhor de todas, foi a “Maldição do Lobisomem”, pena que no dia mais importante da fita o cinema acabou.
_ E então o senhor não ficou sabendo o final? Perguntou o jovem, agora já começando a se interessar mais pela história do velho. Este olhou com nostalgia o horizonte e com voz triste e lastimosa falou:
_ É meu filho, eu não fiquei sabendo o final daquela fita. Já se passaram mais de cinqüenta anos, e até hoje eu não sei quem era o lobisomem.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A INSPIRAÇÃO É VIVA


Ernani Maller

Se alguém disser que a inspiração é viva, certamente algumas pessoas rirão, mas é justamente isso que passo a esclarecer agora. Confesso que com certo desconforto, mas juro, tudo que aqui eu relato é a mais pura verdade.
Eu ouvi aquelas cinco ou seis notas musicais, sem me preocupar em saber de onde vinham, era uma voz feminina, como dessas cantoras líricas, que tem a voz muito trabalhada. Vinha por trás da minha cabeça, e a pequena melodia era repetida insistentemente, até que eu comecei a cantarolar as notas e depois a elas a acrescentar outras notas. Em poucos minutos eu tinha uma melodia, na verdade, uma bela melodia, que futuramente ganharia uma letra e se tornaria uma linda canção.
Dias depois a voz voltou a soar em meus ouvidos, cantava desta vez uma melodia mais alegre, mais cheia de vida, já nas primeiras repetições eu decorei as notas. Como da primeira vez, aquela pequena melodia acrescentei outras notas musicais e mais uma bela música surgiu.
Foi assim que passei a conviver com a inspiração, compor com uma grande freqüência, porém, ainda sem entender de onde vinham aquelas melodias, como se elas saíssem realmente de dentro de mim, como é senso comum acreditar que a inspiração nasce dentro de cada um. Até que um dia a surpreendi. Eu havia virado o meu sofá, de forma que fiquei de frente para a janela, quando a inspiração entrou e começou a cantar às primeiras notas, deu com meus olhos observa-la. Ela ficou muito embaraçada e partiu sem me deixar nenhuma nova melodia e por vários dias deixou de aparecer. Até que um dia enquanto eu regava as plantas no jardim, ouvi aquela voz vindo de longe, foi se aproximando, cada vez mais nítido era o canto, eu me virei e lá estava ela, agora sem nenhuma timidez, me olhava cantando e sorrindo como a me perdoar por eu tê-la descoberto. Sorria um sorriso amigo, um sorriso de cumplicidade. Desse dia em diante nossa relação passou a ser de mais confiança. Por vezes eu até questiono sua forma de interpretar certas músicas e ela, é sempre muito paciente comigo, ao perceber alguma dificuldade de minha parte para assimilar uma nova melodia, repete quantas vezes for necessário. Agora há mais sinceridade entre nós, até as melodias são mais sinceras. Muitas vezes é com ela que eu desabafo meus problemas, ela não fala, mas me da muita atenção, é uma verdadeira amiga e uma boa ouvinte.
Embora eu não seja bom fisionomista hoje eu posso descrever como é a inspiração: _ Ela é um ser alado, pouco maior que um beija flor, muito transparente, sendo inclusive possível ver-se através dela, sua cor levemente azulada, nos da a impressão que ela é feita de água, as suas cordas vocais são externas e a pessoa que é agraciada com seu canto de melodias inéditas, pode inclusive vê-las vibrando. No rosto e no vôo, trás sempre uma expressão de acordo com a música, se a música é alegre ela sorri e voa com impulsos rápidos de um lado para o outro, se a música é triste, flutua leve no ar com lágrimas azuis, nos olhos ainda mais azuis.
Posso dizer que sou íntimo e convivo com bastante liberdade com a inspiração, que às vezes chega em momentos indesejáveis, então eu uso da liberdade que tenho e digo: _ Vá para outro, hoje eu tenho não tenho tempo pra você, deve haver vários compositores precisando de melodias, vá, vá . Ela parece ficar chateada e acaba indo embora, some por alguns dias, mas depois volta me rodeando, sempre com uma nova e bela melodia.
Várias canções como Imagine de John Lennon, Águas de Março de Tom Jobim, O Que Será de Chico Buarque e muitas outras já havia chega do a mim antes de serem compostas por esses artistas, mas como o momento não me era adequado, eu mandava que a inspiração fosse para outros, felizmente foram bem aproveitadas. Uma melodia que ela me trouxe certa vez, eu não entendi como sendo uma música, foi o “Samba de uma Nota Só”, aquela repetição da mesma nota parecia mais com um Código Morse, meses depois a ouvi no rádio e admiti que me faltou percepção e que esses rapazes, Tom Jobim e Newton Mendonça, eram realmente grandes compositores.
Pois então, não acredite se um dia alguém lhe disser:
_”A inspiração é um fenômeno do cérebro que todos vivenciam, mais poucos compreendem”. _ Pois eu digo e afirmo: _ A inspiração é viva, porém, só vem para os escolhidos.

BRIGA DE FOICE



Ernani Maller

Pode me torturar
Me rasgar
Me bater
Pode me ferir a dente
Me botar corrente
Pois eu sei sofrer

Pode me tratar a berro
Pois eu sou de ferro
Vou até o fim
Pode me ferir a boca
Por que isso é sopa
Lindo querubim

Mas quando cair a noite
Vai ter briga de foice
Pois não quero ver
Você virar de lado
Dizer que está cansado
Sem me enlouquecer

Se não sou eu
Quem te trata a berro
Tu terás que ser de ferro
Para me satisfazer

NA PORTA DO HOSPÍCIO



Ernani Maller


Tocou a campainha da garagem do hospício e o guarda foi atender, abriu uma pequena uma janela que mostrava apenas parte do seu rosto no meio do grande portão de ferro, um senhor de meia idade aparentando muita tristeza perguntou:
_ É aqui que é o hospício?
_ É sim. Respondeu o guarda.
_ Eu vim me internar.
_ Quem mandou o senhor?
_ Ninguém, eu vim por minha conta, eu “tô” maluco.
_ Mas hoje é domingo, e só está o médico de plantão, ele só atende os pacientes que já estão internados, o senhor tem que voltar amanhã as dez da manhã e falar com o doutor Renato.
_ Mas caso de emergência, esse médico que está aí, não atende?
_ Atender ele atende, mas o seu caso não é de emergência.
¬_ Como não?
_ Caso de emergência é quando chega em camisa-de-força.
_ E onde eu consigo essa tal camisa-de-força?
_ Eu não sei não, é o pessoal da ambulância que tem.
_ Será que eu não posso dormir aqui para amanhã eu falar com o doutor? Eu sei que ele vai me internar mesmo.
_ Não pode não, o senhor tem que voltar amanhã. Mas eu trabalho aqui há duas semanas e já tenho alguma experiência, posso lê adiantar uma coisa.
_ O que? _ Perguntou o candidato a paciente.
_ O senhor não está maluco, não.
_ Como é que você sabe?
_ Eu sei por que o senhor afirma que está maluco, não é?
_ É.
_ Então? Quem está maluco, não sabe que está maluco, portanto, se senhor acha que está maluco, é porque o senhor não está maluco.
_ Tem certeza?
_ Tenho.
_ Então o que, que eu faço com essa tristeza, essa angustia no meu peito e essa vontade de chorar?
_ O senhor vai pra casa, toma um copo de água com açúcar, senta quietinho num canto, que isso passa.
_ Sério?
_ Sério.
_ Então “ta” bom, muito obrigado.
_ De nada.
Deve ter dado certo, o homem nunca mais voltou.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O CHAPÉU


Ernani Maller

Certo dia percebi em cima da mesa da sala um chapéu, não lembrando de quem poderia ser, resolvi guarda-lo em cima da estante. No dia seguinte estava novamente o chapéu em cima da mesa, achei estranho porem não pensei mais no caso.
Meses depois me mudei da cidade Petrópolis para a cidade de Armação dos Búzios, ambas no estado do Rio de Janeiro. Uma bela manhã ao levantar-me, deparei com o chapéu no espaldar de uma cadeira na sala de estar, estranhei pois havia alguns dias ninguém me visitava, deixei o chapéu na cadeira e a noite o encontrei em cima da mesa, ai comecei a me preocupar e a pensar mas no caso. Na manhã seguinte o chapéu estava no mesmo lugar, porem na noite seguinte havia desaparecido.
Algum tempo depois naquele ano, fui a Petrópolis visitar minha mãe, nesta visita pedi a ela uma foto minha aos dois anos de idade para incluir em um trabalho biográfico, enquanto procurávamos a foto íamos vendo várias fotos antigas e fazendo comentários, até que surge uma foto de minha mãe ao lado de meu pai, que usava um chapéu idêntico ao que apareceu em minhas casas. Tive um arrepio, mas não comentei nada com minha mãe, mas resolvi levar também esta foto .
De volta a Armação dos Búzios mandei emoldurar a foto e a pendurei na parede. Retornei a minha vida normal, até que certo dia ao chegar em casa, vejo em cima do sofá encostado na parede sob a foto, o chapéu. Peguei-o e o examinei, comparei com o chapéu que meu pai usava na foto, era incrível a semelhança, detalhes como fivela, costuras, dobras e pequenas manchas não deixavam duvidas, era o mesmo chapéu, três dias depois ele desapareceu novamente e eu comecei a me perguntar o porque dessas aparições qual a sua freqüência? Então olhei no calendário era 21 de março, dia do aniversário de meu pai. Esperei o próximo ano e no dia 19 de março lá estava o chapéu sobre o sofá e desaparecendo no dia 21 de março. Passei a me lembrar do aniversário de meu pai, talvez esse seja o intuito do chapéu, me lembrar essa data.
Já se vão mais de dez anos desde a primeira aparição, não posso dizer que acho uma coisa normal, mas já espero a cada 19 de março, o seu aparecimento, e a cada ano ele aparece mais velho, mas desbotado, ganhou novas manchas e já não tem a antiga fivela, mas é o mesmo chapéu, o chapéu do meu pai.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O DIA DAS BATATAS


Enani Maller

Era muito estranha a loja do Seu Belarmindo, pois media um metro e meio de frente, por trinta metros de fundo. Na verdade um imenso corredor no qual Seu Belarmindo transitava ao meio, tendo os lados entulhados de mercadorias. Ali se encontrava de tudo, mantimentos, roupas, eletrodomésticos, remédios, brinquedos, fumo de rolo, ratos, material para construção, enfim a loja era um verdadeiro tudo em um, tudo em um corredor, para ser mais exato.
Mas a desproporção nas medidas da loja tinha uma explicação, onde hoje está estabelecido o Seu Belarmindo, outrora fora uma servidão que levava a várias casas, que foram desapropriadas para dar lugar a uma estrada de ferro. Seu Belarmindo que sempre foi dado ao comércio, se instalou na entrada da servidão, agora sem serventia, com uma carrocinha de pipocas, pois o local era bastante adequado, por ficar próximo a duas escolas primárias.
O negócio das pipocas ia bem, mas de vez em quando alguém pedia um refrigerante, afinal, pipoca salgada da sede, Seu Berlamindo resolveu o problema com um isopor e algumas pedras de gelo. Uma ou outra criança procurava por doce, então Seu Belarmindo arranjou uma pequena vitrine e passou a oferecer também doces. E por que não salgados? _ Sim, Seu Belarmindo passou a vender também salgados variados, a freguesia que aumentava dia a dia, tinha que estar sempre satisfeita.
Em um dia de chuva Seu Belarmindo se viu em dificuldades, porem Zé Meia Colher, pedreiro conhecido pelos maus serviços prestados à comunidade, lhe emprestou algumas telhas de amianto, sobra da ultima demolição que lhe foi confiada, com as quais Seu Belarmindo cobriu a carrocinha, o isopor e a pequena vitrine dos salgados. Ele, porém, ficou no desconforto daquela chuva fina e fria, que lhe doía até os ossos. No dia seguinte providenciou mais algumas telhas, afinal, como ele dizia: _ Não tenho horta nas costas, portanto não preciso ficar sendo regado por está garoa dos infernos dia inteiro.
E assim, com a omissão do poder público, que não fiscalizava a invasão do imóvel e nem o comércio que funcionava sem a devida regulamentação, Seu Belarmindo foi expandindo e melhorando suas instalações, até tomar conta de toda a servidão.
Apesar do dom para o comércio, Seu Belarmindo não era um nenhum primor em matéria de organização, por exemplo: Mantinha no fundo da extensa loja, os produtos que eram mais vendidos, o que o obrigava a percorrer o longo caminho (trinta metros pra ir e trinta pra voltar) por várias vezes, para atender as solicitações de um mesmo cliente.
Certo dia, em que Seu Belarmindo estava muito nervoso, devido a problemas conjugais, pois a esposa, trinta anos mais nova que ele, havia viajado para visitar a família e já devia estar de volta há vários dias, mas nem notícia deu. Também os problemas financeiros o atormentavam, o número de fiados era cada vez maior e a inadimplência nunca havia sido tão grande. Justamente nesse dia que aconteceu na cidade de Bom Jesus do Sul, “O dia das batatas”.
Seu Belarmindo sempre teve um grande estoque deste produto, pois segundo ele: _ Tendo batata em casa a gente não passa fome, faz-se um purê de batata, batata frita, batata cozida, doce de batata, pão de batata, salada de batata, batata murro, batata recheada, batata sotê, conserva batata. _ E seguia uma extensa lista, de dar água na boca de beduíno.
Naquele fatídico doze de maio, nem bem abril a loja, chegou seu Baltazar. Senhor de setenta e cinco anos, criou todos os oito filhos vendendo sorvete pelas ruas, praças e praias da cidade, era considerado pelos colegas de classe o maior sorveteiro de Bom Jesus do Sul, realmente, um grande sorveteiro.
_ Bom dia Seu Belarmindo! _ Seu Baltazar com um cachecol enrolado ao pescoço, chegou cumprimentando o comerciante.
_ Bom dia Seu Baltazar._ Respondeu Seu Belarmindo cabisbaixo.
_ Minha velha vai me fazer hoje uma sopinha de batata batida no liquidificador, pois eu estou com uma baita dor de garganta e não posso comer nada sólido.
_ Isso é de tanto chupar sorvete. _ Brincou Seu Belarmindo, não querendo demonstrar sua tristeza.
_ Não, eu não chupo sorvetes, é contra os meus princípios, seria como traficante viciar em cocaína, cafetão apaixonar-se por prostituta; arruína o negócio.
_ Quantos quilos de batatas Seu Baltazar?
_ Somente um quilinho, Seu Berlamindo, é só pra mim mesmo. _ Seu Berlamindo vai até o final da loja, coloca algumas batatas no pacote que levou com sigo e volta percorrendo o longo caminho, pesou na presença do cliente, Seu Berlamindo gostava de tudo às claras, dava mais confiabilidade aos negócios, novecentos gramas, Seu Belarmindo voltou ao fundo da loja, percorrendo os sessenta metros de ida e volta, vem trazendo quatro batatas nas mãos, porem três bastaram para completar um quilo.
_ Aqui estão suas batatas Seu Baltazar.
_ Obrigado Seu Belarmindo.
Seu Belarmindo vai até o final da loja e leva a batata que sobrou.
Quando volta ao balcão encontra dona Verônica.
_ Bom dia Seu Belarmindo, o senhor tem batata.
_ É o forte da casa, dona Verônica.
_ Eu vou querer um quilo.
_ Pois não._ E foi Seu Belarmindo até o final da loja.
_ Aqui está freguesa.
_ Pensando bem, eu vou levar mais meio quilo, Seu Belarmindo.
_ A senhora é quem manda. _ mais trinta metros pra ir, trinta pra voltar.
_ Aqui estão senhora, somente as batatas?
_ São sim, hoje me deu vontade louca de comer batata frita, muito obrigada Seu Belarmindo._ Pagou e se foi.
_ Seu Belarmindo ia senta-se para descansar um pouco, quando chega mais um cliente, Antunes,o guarda noturno. _ Seu Belarmindo, dois quilos de batatas por favor. Logo após chega, João Gordo. ¬_ Seu Belarmindo, um quilo de batatas. Depois vem D. Anália, Seu Pedro padeiro, Zé da Égua, Mario Cebola todos queriam batatas, trinta metros pra ir, trinta pra voltar, as três irmãs língua de trapo, um quilo pra cada, Padre Gabriel, esse levou quarenta quilos, ele coordenava o orfanato da cidade, o que demandou quatro viagens, Antônio do táxi, Zé da Zira, e tome batatas. Até que chegou André Sapato Novo acompanhado de Antônio Cachaça.
_ Seu Belarmindo, um quilo de batatas, por favor. _ Pediu André.
_ E você, não vai querer um quilo de batata também, vai? ¬_ Perguntou Seu Belarmindo a Antônio Cachaça, que na verdade só bebia conhaque. É certo que o autor do apelido percebeu adicionar cachaça ao nome de Antônio, humilhava mais do que conhaque, que é bebida de origem estrangeira. Por isso Antônio sempre relutou em aceitar o apelido, não tendo nenhuma cerimônia para xingar a mãe de quem se atrevesse a se referir a ele pela maldita alcunha, sem perceber que a relutância é o catalisador dos apelidos.
_ Não Seu Belarmindo, eu não vou querer um quilo de batatas, não. _Respondeu Antônio Cachaça _ Seu Belarmindo foi até o fundo da loja, mais sessenta metros, trazendo um quilo e meio de batatas para André, que pagou despediu e se foi.
Seu Belarmindo voltou-se para Antônio Cachaça e pergunta:
_ E você Antônio, o que manda?
_ Eu quero duzentos e cinqüenta gramas de batatas.
A polícia chegou vinte minutos após o ocorrido, Antônio Cachaça caído do lado de fora do comércio, Seu Berlarmindo do lado de dentro. Por testemunha somente Zé do Remédio, o farmacêutico, estabelecido próximo a Seu Belarmindo.
_ Olha Seu delegado quando eu ouvi o primeiro disparo, olhei em direção ao comercio de seu Belarmindo, ele apontava a arma para o Antônio, ainda deu mais dois tiros no coitado e depois atirou contra a própria cabeça.
_ Mas ele não falou nada? _ Perguntou o delegado.
_ Falou sim. _ Respondeu Zé do Remédio. _ Eu não sei por que, mais antes de se suicidar, olhou pro Antônio caído no chão e falou bem alto: _ Vai comprar batatas no inferno.

domingo, 24 de janeiro de 2010

SORTE DE KOKURA OU AZAR DE TSUTOMU YAMAGUCHI?





Ernani Maller

Há no Japão uma expressão que é “Sorte de Kokura”. Eu explico o porquê: Quando da Segunda Guerra Mundia, três cidade japonesas foram escolhidas como possíveis alvos das bombas atômicas: Hiroshima, Nagasaki e Kokura. No dia 6 de agosto de 1945, quando foi lançada a primeira bomba, a de urânio, que os americanos, em tom de deboche e pouco caso com seu poder de destruição, chamavam de Little Boy (garotinho), em Hiroshima, Kokura seria a segunda opção, caso em Hiroshima o tempo estivesse nublado, como lá o tempo estava bom os americanos lançaram, pela primeira vez na história, uma bomba de energia nuclear sobre uma população de civis inocentes, matando de uma só vez mais de 140 mil pessoas, que não tiveram oportunidade de ao menos saber o que lhes atingiu.
O Coronel Paul Tibbets Jr. era o comandante do grupamento 509o, que foi transferido para a pequena ilha de Tinian, no Arquipélago das Marianas, no meio do Pacífico, foi ele quem comandou o B-29, que levava na lateral o nome de sua mãe: Enola Gay. Voando 9 mil metros de altitude, porém, desceu a 4.550 metros para lançar a bomba que explodiu a 500 metros do chão, transformando em vidro a terra em um raio de mais de 300 metros, provocando um desloacamento de ar com vento de mais de 800 kilômentros por hora.
Passaram-se três dias e os bombardeiros B-29 americanos voltaram à ação, desta feita, o alvo primário seria Kokura e o secundário Nagasaki, porém ao chegarem à Kokura o tempo estava nublado, então partiram para a segunda opção: Nagasaki, aí lançaram a segunda bomba, com carga atômica de plutônio, Fat Man (homem gordo).
Nas duas ocasiõs Kokura foi poupada, primeiro pelo bom tempo em Hiroshima e na segunda ocasião, pelo mal tempo em seu próprio território. Daí nasceu e expressão “sorte de Kokura”, diz-se de alguém que está com muita sorte.
Morreu 11/01/2010, aos 93 anos, Tsutomu Yamaguchi (foto), que na época da Segunda Guerra era morador da cidade Nagasaki, porém, estava resolvendo negócios em Hiroshima no dia em que foi lançada a primeira bomba. Ali ele foi medicado,devido a alguns ferimentos na parte superior do corpo e voltou para sua cidade: Nagasaki, três dias depois sofreu com a segunda bomba. Tsutomu Yamaguchi, até onde se sabe, foi o único sobrevivente dessas duas catástrofes causas das pela intolerância do homem.
Mas Tsutomu Yamaguchi é mostra de que pode haver sorte até mesmo no azar. Por infelicidade ele estava nos dois eventos catastróficos, mas por sorte se salvou em ambos. Nas duas explosões, que causaram grandes danos em um raio de quatro kilômetros, ele estava a mais ou menos a três kilômetros de distância.
Na segunda explosão, a de Nagazaki, ele, mesmo machucado, se apresentou no estaleiro em que trabalhava,Quando soou o alarme antiaéreo, a maior parte de seus colegas foram para um abrigo, ele resolveu ficar com a mulher e o filho, a bomba caiu exatamente em cima do abrigo, matando todos que ali estavam.
Apesar dos ferimentos, Tsutomu Yamaguchi, presenciou a história, tornando-se um palestrante que falava em nome da paz, além de ter escrito livros e músicas sobre os episódios.
Na verdade os Estados Unidos pretendia mostrar ao mundo, e principalmente a União Soviética, o seu poderio nuclear. Em 15 de agosto de 1945, diante da destruição causada pelas bombas, o Japão se rende, pondo fim à Segunda Guerra mundial e iniciando a chamada Guerra Fria.
Em outbro de 1982, enquanto eu passava pela Praça D. Pedro em Petrópolis, minha cidade natal, ouvi alguém chamar pelo meu nome, era um músico amigo meu, que correndo ao meu encontro disse: olha estão precisando de um músico para ir se apresentar no Japão, e eu sugeri que você fosse, vá falar com o empresário que ele deve te escolher para fazer essa temporada lá. Eu respondi que iria depois falar com a tal pessoa, mais o meu amigo insistiu que eu fosse naquele momento. Acabei indo mais pela insistência dele, do que por acreditar que faria uma viagem para o outro lado do mundo. Eu não ia bem na profissão de músico e a auto estima estava muito baixa para acreditar em qualquer coisa, alias eu tinha ido ao centro da cidade para espairecer, esquecer um pouco as adversidades daquele momento da minha vida.
Bem, eu fui, falei com o empresário e acabei sendo contratado para me apresentar na Boate Saci Pererê, justamente na cidade de Kokura, onde fiz a maior parte dos meus 180 shows no Japão.
Naquele 9 de agosto de 1945, em que a cidade de Kokura estava com o tempo nublado, muitos moradores podem ter achado que não era um bom dia, mais não sabiam a sorte que estavam tendo. Assim como eu não sabia que naquele dia de outubro de 1982, quando caminhava desolado pela cidade de Petrópolis, que também estava com sorte,mas não “Sorte de Kokura”, essa se diz quando alguém se salva de algo muito grave sem percebe o que lhe podia acontecer.